A coleira invisível
Terça-feira da semana passada, sete e meia da manhã. Ouvi de longe ela conversando com a amiga por videochamada. A voz era trêmula, mas com aquele tom de quem pede socorro e, ao mesmo tempo, espera compaixão:
– Depois do que passei, já dei por encerrados os Halloweens deste e dos próximos anos! Quase infarto ou sofro um AVC...
– O que aconteceu, criatura? – perguntou a amiga, já imaginando luzes e sirenes cortando o ar, ambulância, bombeiro e polícia disputando espaço na rua.
– O “Velho” iria participar de uma reunião. Chamei o neto pra caminhar, ele não quis. Fui sozinha. No meio do caminho, dois cães enormes – um boxer e um rottweiler – me atacaram, latindo alto e salivando. Paralisei. Só deu tempo virar de costas e rezar três segundos pra Nossa Senhora de Guadalupe levar minha alma pro céu, sem escalas.
padroeiro oficial das caminhadas no vale de lágrimas.
E fomos. O sol já atiçava o verde das árvores do condomínio, e os cães, indiferentes, cochilavam sob a sombra, quem sabe rindo do susto que haviam causado.
Olhei para ela e pensei: há perigos maiores do que boxers e rottweilers. O maior deles é viver sem se dar as mãos, sem fé na coleira invisível que nos protege da pior das feras: a solidão.
E ali, no intervalo entre o susto dela e minha bravata mal ensaiada, pensei: cães latem, mordem e se cansam. O tempo, não. É o único rottweiler que nunca cochila — e quando avança, não há apito, cerca, coleira ou oração que o segure.
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